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RESISTÊNCIA

Apesar da Prefeitura, o bloco da Cracolândia saiu

Cerca de 200 pessoas, entre trabalhadores, usuários e militantes que atuam na região,  fizeram o Blocolândia desfilar

Double | São Paulo (SP) |
No início do dia, a PM proibiu a realização do evento - Pedro Stropasolas

O Bloco da Cracolândia saiu. Apesar da tentativa da Prefeitura de inviabilizar o evento, cerca de 200 pessoas, entre trabalhadores, usuários e militantes que atuam na região,  fizeram o Blocoândia desfilar pela Luz, região central de São Paulo, com alegria e gritos de resistência.

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“Eu tô aqui nesse bloco para falar para as pessoas que todos nós somos gentes, todos nós somos humanos, e que nós gostaríamos de ser tratados igual qualquer um nesse mundo. Tirando os outros dias que só tem brigas e confusões e ataques de policiais, esse dia pra nós é maravilhoso”, desabafa Roselane dos Santos, moradora da Cracolândia. 

No início do dia, a PM proibiu a realização do evento. A decisão foi publicada no Diário da União da Prefeitura de São Paulo. A corporação  informou em nota que sugeriu à Prefeitura cancelar o Blocolândia “em razão do risco que a aglomeração de foliões pode levar às pessoas em situação de vulnerabilidade".

A concentração, em frente à antiga tenda do Projeto de Braços Abertos, do ex-prefeito Fernando Haddad,  foi de muita apreensão. Enquanto algumas pessoas em mutirão buscavam instrumentos para as batucadas, outras lideravam as negociações com a Guarda Municipal para visibilizar a saída do bloco. 

Assista a reportagem em vídeo do Double

"Houve uma desautorização do bloco e há mais de cinco anos eles já fazem essa atividade aqui. Então nós fomos convocados pelo grupo pra observar a questão da garantia dessa manifestação que já é histórica", afirma Franciso de Assis da Silva Filho, membro da Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB).

No final, o grupo teve o direito de brincar o carnaval. O itinerário seguiu da rua Helvétia, para as ruas Dino Bueno, Alameda Ribeiro da Silva, Alameda Cleveland e termina na rua Helvétia, trajeto combinado entre os organizadores do bloco e a GCM.

“A sensação é que o poder público tem que ter um pouco de compaixão com quem mora na rua”, afirma Iasmin, uma das mais empolgadas na comissão de frente do bloco e  que também vive no fluxo. 

Para Raphael Escobar, da organização Craco Resiste e  um dos organizadores do Blocolândia, o evento é um ato de resistência e um importante projeto de reinserção social. 

“O Blocolândia  funciona como um projeto de redução de danos. Aqui o motivo da galera é parar de usar o crack e curtir o carnaval. Prazer, vocês estão no bloco mais careta da cidade de São Paulo”, afirma.

E completa: “O que incomoda é o usuário sorrindo. O que incomoda é descobrir que na Cracolândia o pessoal é feliz também”.

Criado em 2015, o Blocolândia é uma articulação de trabalhadores, usuários e militantes da região conhecida como Cracolândia, na zona central de São Paulo. É o dia em que todos se unem para uma festividade que propõe a reinserção social através da cultura e do lazer.

O evento se dá em um contexto onde direitos básicos vêm sendo violados à população vulnerável da região, por meio do desmonte dos serviços de cuidado à saúde e assistência social no Estado de São Paulo

O psiquiatra Flávio Falconi, palhaço-médico que atuou no programa De Braços Abertos e no Recomeço - programas que surgiram respectivamente nas gestões do ex-prefeito Fernando Haddad (PT)  e do ex-governador Geraldo Alckmin (PSDB) - destaca que a tentativa de proibição do evento foi uma decisão política. 

“O compromisso como médico é de revelar que esse sistema de políticas públicas de drogas é um sistema de controle social. Um sistema de manutenção de uma estrutura que sempre existiu, uma estrutura colonial. A proibição desse bloco faz parte de um projeto político de controle do prazer. Através do controle do prazer você tem controle da pessoa. É assim que as neopentecostais agem e é assim que o Estado está tentando agir.  Se não é pela igreja é pela bomba da polícia. O prazer é libertador, e eles sabem disso”, afirma. 

 

 



 

 




 

Edição: Leandro Melito


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