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Vai pedir música?

Diário de um derretimento: repórter conta como foi cobrir campanha de Russomanno

O desânimo do candidato sob sua máscara transparente foi assunto entre os jornalistas que acompanharam a campanha

Double | São Paulo (SP) |
Esta foi a terceira eleição em que o candidato despontou na frente para derreter antes do segundo turno - Ricardo Hernandes

É difícil alcançar bons resultados quando trabalhamos sem ânimo, sem vontade. Principalmente se o trabalho for convencer milhões de pessoas a confiar em você. E foi sem nenhum tesão pela tarefa que o apresentador de TV e deputado federal Celso Russomanno construiu sua terceira e pior derrota eleitoral na disputa pela prefeitura de São Paulo, consolidando em si mesmo a imagem de cavalo paraguaio.

De prático, ele leva para casa sua pior derrota na corrida pela prefeitura. O melhor desempenho foi na primeira tentativa, em 2012, quando ficou em terceiro lugar, com 21,60% dos votos (1,3 milhão de votos).

Quatro anos depois, Russomanno também chegou em terceiro, mas viu os votos caírem quase pela metade e acabou com 13,64%. Na campanha deste ano, foram 560 mil votos, pouco mais de 10% do total. E Russomanno ficou em quarto, ultrapassado por Covas, Boulos e Márcio França e com Mamãe Falei encostado. 

O começo da ladeira

Ressabiado pelos fracassos anteriores, Russomanno não queria concorrer mais uma vez, até porque não tinha trabalhado uma base de apoio desde a última derrota, não tinha planejado a campanha ou costurado alianças.

Em setembro deste ano, só duas semanas antes de confirmar seu nome, o presidente municipal do Republicanos, Marcos de Alcântara, oferecia parceria ao PSDB dizendo com clareza ao UOL que Russomanno poderia ser vice na chapa de Bruno Covas.

Só pedia o que chamou de "participação na governabilidade", ou seja, cargos e verbas. O Republicanos, aliás, já estava na prefeitura paulistana e Russomanno indicava nomes no Procon. Para ele, portanto, a aliança era confortável e natural. Difícil seria construir críticas a uma administração da qual ele participou.

Mas o PSDB não topou dar "governabilidade" e Russomanno, pressionado, cedeu a seus dirigentes partidários e ao presidente Jair Bolsonaro, que corria o sério risco de não ter ninguém defendendo seu nome e suas ideias na campanha da maior cidade do país. O presidente seria alvo de muitas críticas sem ninguém para defendê-lo e apelou a uma candidatura que lhe parecia competitiva.

Russomanno não escondeu dos aliados sua insegurança em relação à campanha, mas foi convencido de que Marcos de Alcântara havia construído uma estrutura partidária mais robusta e que o apoio de Bolsonaro seria determinante para um desfecho diferente desta vez.

Ele até tentou acreditar, mas, como temia, deu tudo errado. O apadrinhamento de Bolsonaro se revelou tóxico e a tentativa de atingir a candidatura de Guilherme Boulos na reta final com a ajuda da fábrica de fake news bolsonarista foi a pá de cal na triste caminhada.

Responsável por organizar a campanha em torno de líderes comunitários e religiosos para impedir que a intenção de voto no midiático candidato fosse efêmera, Marcos de Alcântara morreu no final de outubro, vítima de um câncer, e o que pudesse haver de confiança dentro da campanha se perdeu.

A ausência de Alcântara não foi suprida pelo presidente nacional do Republicanos, Marcos Pereira, que é deputado federal por São Paulo, mas preferiu não interromper as articulações que toca para tentar a presidência da Câmara em 2021 pelas por possíveis inimizades criadas numa campanha municipal - ainda que da cidade mais rica do país.

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Faltando algumas semanas para a votação, a coordenação da campanha caiu no colo de Elsinho Mouco, infame marqueteiro do ex-presidente Michel Temer e autor de slogans como "O Brasil voltou, 20 anos em 2" e "Bora, Temer" para combater o "Fora Temer".

Nesta campanha, para atacar o candidato que ameaçava Russomanno nas pesquisas, Mouco cometeu mais uma criação publicitária para marcar seu currículo: "Homem em pele de Boulos", seja lá o que isso queira dizer. A campanha de Boulos festejava internamente a ajuda do adversário em tornar mais conhecido na periferia o nome do psolista.


A comunidade apenas assistia à passagem de mais um ato político sob os tradicionais comentários de "a cada 4 anos aparece aqui" / Ricardo Hernandes

Caçando votos

A periferia, aliás, foi onde a campanha de Russomanno tentou consolidar votos, já que as pesquisas mostravam péssimo desempenho dele entre os eleitores de maior renda e escolaridade. "Eu vejo o apoio que a gente tem nesses locais e acredito muito que vamos ao segundo turno", repetia ele, como um mantra, aos jornalistas que cobriram sua campanha.

Nos momentos de maior empolgação em discursos, o candidato sempre era substituído pelo apresentador sensacionalista e os problemas da cidade eram sempre comparados a relações de consumo

Só que esse apoio popular só existiu no discurso do candidato. Suas caminhadas e carreatas não mobilizaram as comunidades e eram acompanhadas apenas pela militância paga ou por um ou outro grupo de igreja, além de candidatos a vereador e suas equipes.

A comunidade apenas assistia à passagem de mais um ato político sob os tradicionais comentários de "a cada 4 anos aparece aqui". O rosto conhecido da TV lhe rendeu sorrisos de comerciantes, mas não os sonhados votos.

Verdade seja dita, nesta eleição em meio a uma pandemia, foi mesmo difícil convencer alguém a militar de graça. De todas as campanhas, apenas de de Boulos e a de Arthur do Val, o Mamãe Falei, conseguiram algum apoio orgânico nas ruas.

Essa falta de apoio abalou dez vez a confiança Russomanno. O desânimo do candidato sob sua máscara transparente foi assunto entre os jornalistas que acompanharam sua campanha. Comentários sobre a voz mecânica eram cotidianos e a falta de um programa de governo consistente saltava aos olhos.

Nos momentos de maior empolgação em discursos, o candidato sempre era substituído pelo apresentador sensacionalista e os problemas da cidade eram sempre comparados a relações de consumo.

O povo paulistano, em busca de um prefeito, não comprou esse discurso reciclado nem acreditou no apadrinhamento de Bolsonaro, mas Russomanno agiu como se a culpa fosse dos jornalistas que acompanhavam sua campanha.

A irritação com a imprensa foi crescente e se refletia na equipe de assessores, que eram instruídos a pedir aos repórteres antecipadamente a pauta de perguntas - mostrando que 30 anos na TV não ensinaram tanto a Russomanno sobre o jornalismo. "Sobre isso ele não vai falar", ouvíamos dos assessores quando mordíamos alguma isca.

É fato que ninguém é obrigado a falar sobre nada, mas um candidato a cargo público precisa assumir seus silêncios em frente às câmeras. E assim se deu o acompanhamento das agendas de Russomanno, com a maioria dos chamados "quebra-queixos", aquelas entrevistas com os microfones amontoados na frente da pessoa, terminando abruptamente quando o candidato não queria falar de algo incômodo.

Entre integrantes da equipe de campanha, se criou a impressão de que todos os demais concorrentes eram bem tratados pela mídia e conseguiam expor suas propostas, enquanto Russomanno era obrigado pelos jornalistas a se manter permanentemente na defensiva, respondendo a perguntas difíceis -- como sua opinião sobre a denúncia do Ministério Público do Rio de Janeiro (MP-RJ) contra o senador Flavio Bolsonaro, seu companheiro de partido e filho de seu padrinho.


De Bolsonaro, Russomanno só queria falar da pretensa amizade, que seria a chave para buscar uma renegociação da dívida da cidade / Ricardo Hernandes

Biden? Não conheço

Mas Russomanno não tinha opinião sobre rachadinha, sobre cheques para Michelle, sobre vice líder do governo com dinheiro na bunda ou sobre qualquer crítica a membros do governo federal. Tentando fugir de polêmicas, até a eleição de Joe Biden nos EUA ele se recusou a comentar.

De Bolsonaro, Russomanno só queria falar da pretensa amizade, que seria a chave para buscar uma renegociação da dívida da cidade e financiar sua principal promessa de campanha, um programa de transferência de renda do qual não se sabia nada - nem o valor.

No último dia 12 de novembro, quando seu derretimento já era inegável, Russomanno explicitou aos jornalistas sua frustração levantando a voz: "Vocês perseguem o presidente Bolsonaro. Isso não se faz. Vocês estão me perseguindo porque eu sou alinhado a ele. É muito triste. Isso não é democracia", reclamou, quase choroso, enquanto buscava votos na favela de Heliópolis.

A equipe de campanha, apesar de inexperiente, percebia que as coisas não iam bem. Uma semana depois de Russomanno dar a declaração desastrosa de que os moradores de rua deveria ser imunes ao coronavírus porque não era infectados apesar de não tomarem banho, uma de suas assessoras perguntou a este repórter (que ela tinha visto apenas 4 ou 5 vezes na vida) o que ele estava achando da campanha do chefe dela.

Surpreendido, busquei uma resposta polida: "Acho que vai bem, ele está se mantendo em cima nas pesquisas e lidou bem com essa questão dos moradores de rua". Acho que ela percebeu a falta de convicção na minha fala.


Sem a máscara transparente, com olheiras fundas e sem tentar ser simpático, Russomanno disse que fez o que deu e que a campanha teve poucos recursos / Ricardo Hernandes

Último ato

A campanha de Russomanno disse aos jornalistas que o candidato iria acompanhar a apuração na sede do Republicanos em São Paulo. No domingo, a derrota do candidato já era dada como certa e, caso ele não carregasse o apoio de Jair Bolsonaro, o mais provável é que ninguém da imprensa aparecesse, pois era preciso concentrar esforços nos vencedores, projetar o segundo turno.

Mas Russomanno era o candidato do presidente da República e suas palavras sobre a derrota valiam muito, jornalisticamente. Será que culparia alguém? Será que anunciaria sua aposentadoria das eleições para cargos do Executivo?

Mas a maioria dos jornalistas estava ali mais por força do ofício do que por curiosidade sobre essas questões. A demora na apuração matou mais ainda o ímpeto dos profissionais e não havia mais do que 10 quando ele finalmente chegou, quase 22h da noite.

Sem a máscara transparente, com olheiras fundas e sem tentar ser simpático, Russomanno disse que fez o que deu e que a campanha teve poucos recursos. Se recusou a polemizar com Bolsonaro por sua ajuda insuficiente e desastrada.

Mas repetiu uma frase tantas vezes que deu pra perceber que era um recado: "Da minha parte, não faltou lealdade". A ver se isso valerá de alguma coisa no futuro político de Russomanno.

* Ricardo Hernandes é um pseudônimo. O nome real do autor e o veículo para o qual trabalha foram preservados.

 

Edição: Leandro Melito


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