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Afeganistão

Com tomada da capital pelo grupo Talibã, política regional passará por reordenamento de poderes

Pode haver mais restrições ao povo afegão, maior presença de China e Rússia e fortalecimento de outros grupos islamitas

Double | São Paulo (SP) |
Um membro do Talibã segura uma automática em cima de veículo enquanto patrulha as ruas de Kabul, em 16 de agosto de 2021. - Wakil Kohsar / AFP

Em 15 de agosto de 2021, a capital afegã de Kabul caiu nas mãos do Talibã, de forma fácil e sem qualquer resistência do exército afegão, que fugiu e desistiu de defender a simbólica cidade enquanto o presidente Ashraf Ghani deixava o país num avião para a Tajiquistão.

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“Esta não é Saigon”, disse Anthony Blinken, secretário de Estado do governo de Joe Biden. “Os EUA foram bem-sucedidos em sua missão de impedir os ataques ao nosso país”. Uma declaração no mínimo caricata do secretário. Se a ideia a ser passada é a de que “nós” americanos fomos ao Afeganistão, destruímos, matamos seres humanos e fomos embora, então a declaração faz sentido. Ora, se for a ideia de que fomos para levar a democracia, a liberdade e a dignidade para os afegãos, então a missão não foi cumprida. Trata-se, portanto, da maior humilhação da maior potência do mundo no século XXI.

Isso porque uma coisa é ser derrotado por outro exército profissional forte, mas ser derrotado por uma guerrilha de jovens beduínos é outra coisa. Talvez isso entre nos anais das guerras do novo milênio e seguramente vai encorajar outros grupos a fazer o mesmo, isto é repetir a proeza do Talibã. A derrota norte-americana é triplamente  amarga: de um lado evidenciou o fracasso de sua estratégia militar, da inconsequência de sua política externa e do fiasco de seus serviços de inteligência que calcularam mal o passo da queda de Kabul às forças do Talibã;  em segundo lugar deixou a imagem de pânico e de fuga dos soldados estadunidenses querendo subir no cargueiro C-5 Galaxy; e, em terceiro, coincide com os vinte anos do atentado terrorista contra as Torres Gêmeas. A saber se os norte-americanos vão recordá-lo - talvez não - sob efeito dessa humilhação. 


Soldados dos EUA tomam posição na proteção do aeroporto em Kabul enquanto milhares de pessoas tentam subir em aviões para deixar o país / SHAKIB RAHMANI / AFP

Costuma-se dizer que a vingança é servida fria. Eis a ironia da história que fez com que duas décadas depois o Talibã volte ao poder de forma triunfal, dando-se ao luxo de assistir à fuga dos EUA desde o palácio presidencial.

Biden como veterano da política norte-americana disse depois de sua vitória na eleição que a “América is back”, ameaçou China, Rússia e todos aqueles que não “acreditam na democracia e na liberdade”. Estava tudo dando certo. De repente, tudo caiu.

Podemos dizer que, com a queda de Kabul, desaba o orgulho estadunidense, a credibilidade da maior potência do mundo, e a legitimidade e pretensão de continuar a comandar o mundo.

História de uma guerrilha e o exemplo deBlowback

Produzir a história dos Talibãs significa voltar a analisar o contexto dos idos anos 1980, momento da invasão soviética ao Afeganistão. Ali, os EUA viram uma oportunidade para desgastar o Exército Vermelho. Foi aí que Jimmy Carter, sob conselho de Zbigniew Brzezinski e da CIA, decide ajudar a oposição antissoviética liderada pelos mujahedins (guerrilheiros islamitas) de Hekmatyar e por um desconhecido burguês saudita chamado Osama bin Laden. Foram bilhões de dólares direcionados em grande parte pelas monarquias do Golfo Pérsico, especialmente pela Arábia Saudita, que aproveitou para exportar sua doutrina extremista wahabita.

Fazer o Jihad no Afeganistão tornou-se, naquela altura, uma espécie de consenso que qualquer muçulmano devia abraçar. A busca da glória, da honra e do martírio contribuíram para a internacionalização do jihad afegão. “Os homens de Bin Laden eram um tipo de Brigada Abraham Lincoln islâmica de jovens voluntários, vindos do mundo muçulmano, que queriam lutar ao lado dos afegãos contra a União Soviética”, registrou Charlmers Johnson em seu livro “Blowback: Os custos e as consequências do império americano”.

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Derrotados os soviéticos, o país entrou numa guerra civil que trouxe à cena, em 1996, um novo player até então desconhecido: o Talibãs (que pode ser traduzido com “estudante”), grupo que professava um rito do islã sunita chamado deobandismo, surgido no século XIX como reação ao colonialismo britânico. Sob liderança e apoio do Paquistão, com aval da CIA e de um mecenas chamado Bin Laden,o Talibã consegue chegar ao poder em 1996. Esse cenário explica-se bem pelo efeito de Blowback, conceito que surge dentro da CIA, que se refere a consequências não pretendidas de uma determinada operação quando é usada além de seu propósito, voltando-se contra quem a fabrica.

O exemplo de Bin Laden, os Talibãs e o próprio Isis são exemplos nítidos de reveses contra os EUA, e seus cidadãos, a partir de sua política externa. Outrora vistos como heróis por países ocidentais, rapidamente tornaram-se uma ameaça terrorista. A destruição dos Budas de Bamiyan, em março de 2001, classificados como patrimônio mundial da UNESCO, e políticas de exclusão contra mulheres mostraram o lado sombrio deles.

O efeito 11 de setembro 2001

O ano de 2001 impactou de forma significativa as relações internacionais do século XXI. O ataque terrorista de 11 de setembro às Torres Gêmeas, em território dos EUA, desafiou a segurança nacional do país.

As consequências diretas após o ataque ocorreram na invasão do Afeganistão, em outubro de 2001, e do Iraque, em março de 2003, os marcos da “Guerra Infinita contra o Terror”, cujo objetivo público declarado era estabelecer regimes democráticos em países do Oriente Médio. A justificativa específica para a invasão do Afeganistão foi o fato de as bases de operações da Al-Qaeda estarem localizadas no país. Após retirar os Talibãs do poder ao mesmo tempo que destruía a infraestrutura da Al-Qaeda, os EUA começaram uma caçada ao líder do grupo, um antigo aliado, Osama bin Laden.

Tirante os objetivos mais imediatos, a operação Enduring Freedom (Liberdade Duradoura) levou vinte anos, terminando nas cenas que temos visto nos últimos dias. Nesse período, os Talibãs tomaram inspiração nos métodos de guerrilha, como emboscadas surpresa, do Vietnã. Conhecedores da geografia local, conseguiram desgastar as forças da OTAN e dos EUA, levando-os a perder milhares de homens e trilhões de dólares. A insustentabilidade da guerra levou os norte-americanos a sentar-se na mesa de negociações em 2020 com os Talibãs, que obrigaram os estadunidenses a assinar um acordo humilhante em que a maior potência do mundo comprometeu-se a nunca mais interferir nos assuntos internos do Afeganistão e a sair do país.

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Uma avaliação da presença da OTAN e dos EUA mostra a inexistência de uma estratégia clara para o Afeganistão, hesitando entre o colonialismo e a guerra fora de suas fronteiras. Além disso, a luta contra o terrorismo evidenciou-se inócua. Assim, depois do acordo de Doha em 2020, que foi de facto um reconhecimento oficial por parte de Washington da guerrilha Talibã como sendo uma força política legítima, o caminho estava aberto para o assalto final.

Além disso, para esse desfecho o apoio do Paquistão não foi segredo. Já em termos econômicos, pouco se fez no país para ganhar os corações dos afegãos. O dinheiro aplicado acabou no bolso de ONGs e organizações de desenvolvimento ocidentais que faziam uma espécie de turismo na região. Sem esquecer a corrupção dos governos colocados pelos estadunidenses. É preciso sublinhar que a nova geração dos Talibãs é mais flexível em alguns aspectos, tornou-se mais pragmática, sabendo tirar vantagem da venda do ópio que levou ao enriquecimento do movimento. Ao viver de forma austera, conseguiu conquistar populações e até partes do próprio exército afegão, o que pode explicar porque a abertura da porta de Cabul ocorreu sem nenhuma resistência.

Ainda é cedo para falar de outros apoios ao novo regime de poder, especialmente de Rússia e China (ainda que esta tenha reconhecido o novo o Talibã como novo governo). Há empresas chinesas no Afeganistão na exploração de minérios, sobretudo ferro e lítio. Como Pequim e Moscou vão agir, a ver.


Soldado do Talibã revista sacolas dos que chegam ao aeroporto de Kabul, em 16 de agosto de 2021. / Wakil Kohsar / AFP

Futuros impactos da ascensão do Talibã

Para o povo afegão, uma primeiras medidas que o Talibã deseja é declarar o Emirado Islâmico do Afeganistão, com todas as medidas que isso acarreta. Isto significa instalar uma polícia dos costumes e penas de mortes sumárias. Quem acompanhou as últimas semanas pôde ver os sinais dos novos tempos que virão. Em reportagem televisiva, o porta-voz do Talibã não hesitou em declarar, com ar desafiador e seguro, de que não haverá tréguas até o estabelecimento da charia islâmica (lei canônica do islã), o que quer dizer a aplicação de medidas mais drásticas contra crimes, denúncias, perseguição contra minorias, restrições às mulheres.

Para a região do Oriente Médio, a chegada dos Talibãs ao poder significa uma nova reorganização de ameaças terroristas nomeadamente em países como Síria, Iêmen e Iraque. Visualiza-se uma infiltração dos grupos radicais desde as fronteiras do Afeganistão, passando por Irã e Turquia, o que vai acarretar ainda mais desestabilização na região.

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Para Estados Unidos e Europa, tudo indica difíceis tempos vindouros. Os EUA já sentiram o choque com a rápida chegada do Talibã à Cabul. Uma consequência imediata é o retorno à cena de Donald Trump, que usa a tomada de Kabul para pedir a saída de Biden. Por conseguinte, isso pode agravar a polarização já profunda no país e dar força trumpismo radical, xenófobo e populista. Muitos daqueles que invadiram o capitólio vão achar no discurso do ex-presidente um incentivo para cometer as maiores barbáries, consolidando a ideologia dos neoconservadores e do fundamentalismo evangélico com todas as suas nefastas consequências.

Em um nível internacional, a derrota dos EUA deve acelerar os desafios e exacerbar o confronto por hegemonia mundial que envolve também Rússia e China. Além desses dois países, a Turquia de Erdogan pode estar de olho no vazio deixado por Otan e EUA.

Resta saber como o Ocidente vai agir perante esse novo reordenamento do xadrez político no Afeganistão e no grande Oriente Médio. Uma coisa vale destacar: a natureza atípica do funcionamento do aparelho do Talibã faz com que qualquer medida de embargo econômico ou financeiro seja inoperante. O modo de vida austero e sem luxo de seus membros faz com que eles sejam alheios a qualquer forma de boicote. Mais, eles irão criar seus próprios mecanismos de defesa procurando tecer suas próprias alianças, nomeadamente com Rússia e China.


Afegãos sentam no topo de uma avião enquanto esperam no Aeroporto Internacional de Kabul, em 16 de agosto de 2021 / Wakil Kohsar / AFP

A Europa, decadente, cheia de problemas e tutelada pelos Estados Unidos, vai lidar com ondas de refugiados, o que pode levar ao aumento da ortodoxia política da extrema-direita. Para o mundo, existe o perigo do retorno do grupo al-Qaida e que a espantosa rapidez da vitória do Talibã dê um tremendo impulso aos extremistas em todos os lugares - seja al-Qaida, o Daesh, os combatentes em Moçambique, na Síria, na Somália, no Iêmen ou na Líbia.

No mês passado, a ONU publicou uma avaliação com base em inteligência recebida de Estados membros afirmando que a al-Qaida “está presente em pelo menos quinze províncias afegãs” e que estava "operando sob proteção do Talibã nas províncias de Kandahar, Helmand e Nimruz”.  Por que isso foi ignorado pelo governo Biden?

Como parte do acordo do ano passado com os EUA, o Talibã prometeu não permitir o treinamento, arrecadação de fundos ou recrutamento “de terroristas, incluindo al-Qaida, que ameaçariam a segurança dos Estados Unidos e dos aliados”. Zalmay Khalilzad, o representante especial dos EUA para a reconciliação do Afeganistão, disse ao Congresso em maio que o grupo havia “feito um progresso substancial” no cumprimento desses compromissos.

Mesmo que isso fosse verdade então, e provavelmente não era, agora todas as apostas estão anuladas. E não está clara qual será a atitude do Talibã em relação à al-Qaida ou outros extremistas comprometidos com campanhas transnacionais de violência no Afeganistão.

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A derrota dos soviéticos em 1989 pelos mujahedins afegãos tornou-se um mito fundador que contribuiu significativamente para o surgimento de todo o movimento jihadista global contemporâneo. Teme-se agora que a derrota da principal superpotência por um grupo de jovens guerrilheiros afegãos seja um grande golpe de propaganda no exato momento em que todos esses grupos precisam urgentemente de uma nova narrativa.  A Al-Qaida afegã, a al-Qaida do Magreb Islâmico e do Sahel, o Boko Haram na Nigéria, o al-Chabab na Somália, o Daesh, as centenas de milícias na Síria, ou seja, muitos  dos grupos formados por serviços de inteligência ocidental e pagos com dinheiro das monarquias do Golfo Pérsico vão se sentir encorajados a levar adiante uma nova guerra contra os “cruzados”. Eis o perigo!

Uma das muitas razões para o fracasso dos EUA no Afeganistão foi a incapacidade de, ainda nos primeiros anos do conflito, de distinguir entre al-Qaida (produto da CIA) que se insurgiu contra os estadunidenses e se comprometeu com a derrubada de regimes no Oriente Médio, e o Talibãs, um movimento reacionário afegão com forte elemento étnico e nacionalista local que pretendia impor um governo religioso rigoroso.

Durante estas três décadas da presença de al-Qaida no Afeganistão, as relações com os Talibãs evoluíram bastante. A Guerra ao Terror, o dito dano colateral da guerra remota eletrônica norte-americana incutiu neles um sentimento amargo e um desejo de vingança. As incoerências das estratégias estadunidenses no Oriente Médio, a falsidade da operação “Liberdade Duradoura”, os estragos no Iraque, na Líbia, o tratamento diferencial para com regimes despóticos do Golfo Pérsico, tudo isso apenas aprofundou o ressentimento e deslegitimou o ocidente. Em suma, o feitiço que virou contra o feiticeiro.

* Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do Double.

** Mohammed Nadir (OPEB- Observatório de Política Externa e Inserção Internacional do Brasil/UFABC )

Edição: Arturo Hartmann


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