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Sanções sufocam Rússia e selam rompimento com Ocidente

Negociações para o fim da guerra não andam e economia russa agoniza com sanções da comunidade internacional

Rio de Janeiro (RJ) |
Mais de 300 empresas, entre elas o McDonald's, anunciaram que vão deixar a Rússia - AFP

Enquanto a guerra da Rússia contra a Ucrânia entra na sua terceira semana sem as partes conseguirem avançar em um acordo de cessar-fogo, o Ocidente aperta o cerco contra Moscou através de mais sanções para minar a economia russa.

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Em 10 de março, os ministros das Relações Exteriores da Rússia e Ucrânia, Serguei Lavrov e Dmitry Kuleba, tiveram a sua primeira reunião desde o início da guerra e conversaram sobre as condições para o fim das hostilidades, no entanto, nenhum resultado foi alcançado.

Desde 2014, quando começou a deterioração da relação entre a Rússia e o Ocidente com a eclosão da crise ucraniana, que resultou na anexação da Crimeia, Moscou recebeu mais de 5,5 mil sanções. Metade delas foi após a recente intervenção na Ucrânia, iniciada no último 24 de fevereiro.  A guerra causou uma reação sem precedentes da comunidade internacional. Até o momento, mais de 300 empresas estrangeiras anunciaram o congelamento da sua atividade ou a saída do mercado russo.

O doutor em Ciências Econômicas e diretor do Centro de Pesquisa da Sociedade Pós-Industrial, Vladislav Inozemtsev, em entrevista ao Double, observou que o impacto das sanções aplicadas contra a Rússia após 24 de fevereiro foi “absolutamente diferente de tudo o que havia antes”. Segundo ele, todas as restrições do Ocidente contra Moscou nos últimos anos foram muito fracas e, em geral, “não afetaram seriamente nada e praticamente não foram sentidas por ninguém na Rússia”.

“Agora, inicialmente nós vimos a deterioração da moeda, o que é muito danoso [...] Vimos a situação ligada ao fechamento do espaço aéreo e o isolamento russo. Vimos o fechamento de contas de bancos, porque muitos bancos não conseguem trabalhar com agências internacionais, assim muitos cartões internacionais serão bloqueados fora da Rússia”, afirma.

De acordo com ele, as sanções aplicadas nas últimas duas semanas foram o suficiente para a Rússia sentir um sufocamento da economia. As consequências imediatas foram: “drástica a queda do rublo, drástico aumento dos preços, restrições de transações, e, em geral, um sério desconforto financeiro”.

A questão central é que não está claro como será o funcionamento das importações, das quais a Rússia é muito dependente. O problema, de acordo com o Inozemtsev, "não se refere às sanções, mas como vão funcionar os pagamentos, se as empresas estarão dispostas a fornecer algo, qual será a reação da China, e etc”.

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O economista destacou, no entanto, que o cenário geral dos efeitos das sanções na economia russa só aparecerá mais claramente no final de março, considerando que as medidas adotadas pelas autoridades russas até então foram de contenção da crise, como o fechamento da bolsa, controle de moeda, proibição de transferências para o exterior, bem como a restrição de compra de dólares pela população.

“O Banco Central tem muito poucos instrumentos, nós não sabemos, por exemplo, se estão preservados ou em que situação estão os fundos de riqueza, nós não sabemos se o governo fará investimentos neste ano que poderiam segurar a economia. São muitos os fatores desconhecidos. A estratégia macroeconômica estava orientada a produzir taxas para segurar a inflação, mantê-la em níveis suficientemente baixos, sustentar os programas estatais de hipotecas, os investimentos estatais. Agora isso tudo foi enterrado”, afirma.

Para Inozemtsev, os investimentos estatais também vão diminuir drasticamente, porque não está claro onde é possível jogar recursos de infraestrutura, que ficou muito conectada a equipamentos importados, que podem não existir mais.

Sanções de petróleo e gás

Neste cenário, a economia russa sofreu mais um golpe nesta semana, e desta vez o alvo foi o setor mais importante de sua economia: a exportação de petróleo e gás. Na última terça-feira, 8 de março, os EUA anunciaram a decisão de proibir a importação de petróleo, gás e carvão de Moscou. Segundo o presidente dos EUA, Joe Biden, a medida representa um ataque à “principal artéria da economia da Rússia”.  

O Reino Unido também anunciou uma interrupção gradual da compra de petróleo russo até o fim deste ano, enquanto a União Europeia anunciou um plano de redução do uso de gás russo em 30% até 2030.


Trabalhador atua no campo de perfuração gás da petroleira russa Gazprom, na península russa de Yamal. / Alexander Nemenov / AFP

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O analista-chefe do Fundo Nacional de Segurança Energética da Rússia, Igor Ushkov, em entrevista ao Double, afirma que a dependência russa da exportação de petróleo e gás é muito grande, mas destaca que esta dependência é mútua, motivo pelo qual europeus falam abertamente que por enquanto não podem abrir mão do petróleo e gás russos.

Como afirmou na última terça-feira (8) o ex-economista-chefe do Banco Europeu para a Reconstrução e o Desenvolvimento (Berd), Serguei Guriev, em uma publicação no Twitter, a proibição dos EUA de importar petróleo russo, se coordenada com a Europa, junto com sanções a compradores não ocidentais, pode causar um sério problema fiscal à Rússia, a ponto de Moscou não conseguir pagar pela guerra na Ucrânia e pela repressão interna aos protestos antiguerra.

O setor de petróleo e gás representa cerca de 40% do orçamento federal da Rússia. Para o economista Igor Ushkov, “agora esse número será ainda maior, provavelmente acima de 50%”. Ele aponta a economia russa deve transitar para um caminho de uma "economia de guerra", para um regime anticrise.

Rússia responde com nacionalização

Em resposta às sanções internacionais, a Rússia encaminha um pacote de medidas de apoio à economia do país. Ele prevê a nacionalização de empresas estrangeiras que decidiram parar de operar na Rússia.

O projeto de lei permitirá que haja uma gestão externa por ordem judicial em empresas que tenham mais de 25% de propriedade nas mãos de cidadãos de Estados considerados "hostis" por Moscou.

A medida ainda precisa ser aprovada pelo Legislativo, mas Putin já declarou apoiar o projeto de lei e o partido governista Rússia Unida tem maioria de deputados nas casas legislativas.

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“Se certa empresa estrangeira sair da Rússia, ela deverá entender que sairá sem quaisquer lucros, ela terá tudo confiscado e o empreendimento será novamente ativado, e a empresa perderá o mercado russo, pelo menos por um longo período”, avalia o analista do Fundo Nacional de Segurança Energética da Rússia.

Ushkov considera que este cenário levará a Rússia naturalmente a uma reorientação para o Oriente na busca por novos mercados, independente de como terminar o atual conflito.

“Nos aguardam vários anos de difíceis reformas, difíceis períodos na economia, política, etc. De qualquer jeito, para a situação anterior já não temos retorno e, por isso, é preciso construir um novo modelo econômico, que será orientado para o Oriente, e que se adaptará a novas realidades de sanções. Algumas sanções podem cair, algumas empresas podem superá-las, mas, a princípio, a cooperação no mundo global não será mais como antes”, completa Ushkov.

Os próximos passos

Durante a semana, o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, afirmou que estava disposto a discutir questões territoriais com a Rússia e buscar compromissos sobre elas. Ele também anunciou que havia "esfriado" a questão da adesão da Ucrânia à Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).

O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, por sua vez, disse que a Rússia pode encerrar as ações militares na Ucrânia "em qualquer momento" caso Kiev cumpra com as condições de Moscou. As exigências russas seriam o reconhecimento da independência das autoproclamadas Repúblicas Populares de Donetsk e Lugansk; reconhecimento da soberania russa sobre a Crimeia e a consolidação da neutralidade da Ucrânia e sua não adesão a blocos militares.

Inicialmente, os objetivos oficiais da invasão à Ucrânia anunciados pelo Kremlin  classificada a intervenção como “operação special militar” foram a desmilitarização e a desnazificação do país vizinho.

Apesar da aguardada reunião entre os ministros das Relações Exteriores dos dois países não ter resultado em nenhum acordo concreto para a resolução do conflito, as condições apresentadas pelas diplomacias de Moscou e Kiev durante a semana representaram certo recuo das exigências iniciais e um caminho aberto para as negociações.


Prédio destruído por bombardeio russo em Kharkiv, a segunda maior cidade da Ucrânia / Sergey Bobok / AFP

É o que afirma o cientista político Boris Mezhuev. Ao Double, ele observa que a reunião entre Lavrov e Kuleva mostrou que a condução das negociações é bastante difícil pois “agora nenhuma das partes pode dar um passo para trás, apesar de que houve um avanço de cair algumas das exigências radicais para uma resolução mais ou menos diplomática”.

De acordo com ele, o recuo apresentado pelo lado russo pode ter como causa as duras sanções da comunidade internacional, na medida em que a invasão à Ucrânia não teria saído como esperado, resultando em uma resposta severa de restrições econômicas, também não esperadas pelo Kremlin.

Assim, o aprofundamento da empreitada militar russa na Ucrânia, e a consequente reação internacional de pressionar a economia russa, para Boris Mezhuev, representa um momento histórico de rompimento da Rússia com o Ocidente. Para ele, trata-se de uma situação sem retorno que não se resolverá a curto prazo.

“A Rússia deverá viver de algum outro jeito, apertando os cintos. Eu chamo isso de uma separação entre a Rússia e o Ocidente. Essa separação deveria ser civilizada”, destaca.

O cientista político declara também que a lista interminável de sanções contra Moscou não é favorável a ninguém, mas já deixou algo muito claro: a Rússia precisará viver isolada do Ocidente

“Será um período muito duro e difícil, mas pode ser necessário, essa crise pode ser positiva para o Ocidente, para a Rússia e para todo mundo. Mas para isso é necessário se separar, interromper as ações militares de um jeito que não leve a um revanchismo”, completa Boris Mezhuev.

Edição: Thales Schmidt


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