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FEIRA AGROECOLÓGICA

Comida sem veneno: feira do MST atrai multidão e faz contraponto ao agronegócio em São Paulo

Sucesso de público, 4ª Feira Nacional da Reforma Agrária recebeu 320 mil pessoas em 4 dias de evento na capital paulista

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Toda a diversidade da Feira Nacional da Reforma Agrária foi trazida de áreas do MST em 23 estados brasileiros - Daniel Violal/MST
São alimentos sem agrotóxico e, além disso, são produzidos num contexto de justiça social

A Barra Funda, um dos mais antigos e tradicionais bairros da cidade de São Paulo, foi tomada, no último final de semana - entre quinta e domingo - por mais de 500 toneladas de alimentos saudáveis. Os números dão uma noção do tamanho da 4ª Feira Nacional da Reforma Agrária do MST, que se encerrou na noite do domingo (14), no Parque da Água Branca, região oeste da capital paulista. 

Foram 1730 tipos de produtos diferentes, trazidos até São Paulo por 1700 feirantes de todos os estados e vendidos para mais de 320 mil pessoas ao longo de quatro dias. 

"Estava esperando ansiosa para que essa feira acontecesse novamente, que é uma feira que eu costumava vir todos os anos, para comprar os produtos que vêm do campo, produzidos por essas pessoas incríveis, que alimentam o país”, comemora a produtora cultural Suzi Soares, moradora da capital paulista. 

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"São alimentos sem agrotóxico e, além disso, são produzidos num contexto de justiça social. Isso para a gente é muito legal e por isso a gente veio valorizar essa iniciativa, que é muito importante, além da comida sem veneno, construir um país mais justo”, diz Florencia Lorenzo, pesquisadora. 

Durante a Feira Nacional da Reforma Agrária (Fenara), o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) mostrou que para produzir comida agroecológica é preciso ter terra

"É uma maneira da gente mostrar para o mundo o trabalho com comida e a importância imensa dele, numa época em que a fome está batendo na porta de muita gente, estamos trazendo alimento saudável. Por isso, é imensurável a grandeza de um evento como esse”, afirma Sueli Alves Moreira, do Setor de Produção Acampamento Marielle Vive (SP).

"Nós, agricultores, assentados da reforma agrária, queremos mostrar que produzimos muito e com qualidade”, diz Adilma Fernandes, Agricultora familiar (PB).

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Dados do Instituto de Geografia e Estatística (IBGE), indicam que de toda a área de cultivo do país, 78,3% é usada pelo agronegócio para a produção de commodities para exportação. Já a produção de alimentos para consumo interno, vindos da agricultura familiar, ocupa apenas 7,7% da área cultivável.

Parte dessa comida que alimenta de fato o povo brasileiro foi trazida por mais de mil e duzentos feirantes que vieram ao Parque da Água Branca expor seus produtos. E com um detalhe: a grande maioria com base agroecológica.

"O agronegócio explora a natureza, envenena a terra, queima, desmata… E nós temos essa preocupação ambiental, porque, para nós, produzir alimentos é produzir saúde e vida”, ressalta Silvano Leite, do setor de produção MST (PE).

Toda a diversidade da feira foi trazida de áreas do MST em 23 estados brasileiros. Da Paraíba, os acampados e assentados da Reforma Agrária trouxeram 8 toneladas de alimentos sem veneno, produzidos do litoral ao sertão do estado. 

"Trouxemos banana, abacaxi, inhame, maracujá, artesanato de barro produzido pelas mulheres do assentamento. Também trouxemos a rapadura, conta a paraibana Adilma Fernandes, do assentamento Oziel Pereira, no município de Remígio (PB). 

Para a assentada, o período da feira é uma semana de 10 dias: 4 para a feira e 6 de estrada, contando ida e volta da Paraíba a São Paulo. "A gente começou a organizar nossa produção há uma semana. Como não dá para todos virem para a feira, escolhemos pessoas de referência nas comunidades”, complementa a assentada. 

Já o povo Sem Terra de Pernambuco veio com 3 caminhões e 40 toneladas de alimentos agroecológicos. "A nossa produção é diversificada e vem de todos os assentamentos e acampamentos do nosso estado, do litoral ao agreste pernambucano. Temos a manga, o mamão, a cebola, a melancia… Temos o mel, a cachaça, o coco, que vem lá da Serra do Araripe, e o artesanato, que é muito forte na nossa cultura, destaca Silvano Leite, assentado do município de Ouricuri, no Sertão Pernambucano.

Da horta em formato de mandala do Acampamento Marielle Vive, em Valinhos (SP), também veio uma grande diversidade de produtos. O espaço é símbolo do trabalho coletivo e do compromisso de 700 famílias do MST com a alimentação saudável. "A mandala é a flor da vida; é aquilo que vem para quebrar esse sistema todo quadrado. A mandala é um círculo, um olhando para o outro. É o sentido da vida”, reflete Sueli. 

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A 4ª edição da feira acontece no momento em que o Congresso Nacional aprovou a instauração de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar as ocupações de terras do MST. 

A CPI busca, por meio da criminalização, esconder um fato: boa parte dos alimentos saudáveis produzidos no Brasil só chega à mesa da população porque foram cultivados em terras que se tornaram produtivas a partir das ocupações do MST.

No país, 65 mil famílias sem-terra  vivem acampadas aguardando regularização para serem assentadas, como é o caso de Sueli. A demanda é central do MST ao governo Lula. "Então a gente precisa ser legalizada para ter a tranquilidade de poder produzir mais”, cobra Sueli.

"Somos nós o povo sem-terra, aquele povo que ocupa o latifúndio improdutivo e que hoje estamos dando uma resposta com a nossa produção”, acrescenta Silvano.

 

Edição: Daniel Lamir e Douglas Matos


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