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geopolítica

Afinal, qual a posição dos Brics na guerra da Ucrânia?

Os Brics têm enfatizado a necessidade de uma solução negociada

Double | Curitiba (PR) |
Bandeiras dos países do Novo Banco de Desenvolvimento (NBD), o Banco dos Brics - AFP

O caso recente da África do Sul nos dá pistas para entendê-la. Os Brics têm sido objeto de debates recentes, seja pelo interesse de países em aderir ao bloco ou pela posição da África do Sul em sediar a reunião de cúpula dos Brics com a presença de Putin. Fato é que o bloco tem tornado mais nítida a sua posição de não alinhamento com a OTAN, Kiev e Estados Unidos em relação ao conflito na Ucrânia.

Na última semana, a controvérsia que surgiu nos meios de comunicação tradicionais e nas redes sociais dizia respeito ao fato de que a África do Sul, por aderir ao Estatuto de Roma, deveria prender Putin em solo sul-africano, uma vez que o presidente russo foi condenado à prisão pelo Tribunal de Haia.

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No entanto, o país optou por conceder imunidade diplomática aos participantes da cúpula dos Brics, que ocorrerá em agosto deste ano. Essa posição indica que, no cenário internacional, a guerra na Ucrânia possui interpretações diferentes das apresentadas pela OTAN, pelo governo de Kiev e pelos Estados Unidos.

A África do Sul adotou uma postura de neutralidade no conflito, o que pode contribuir para a criação de condições favoráveis para uma solução negociada entre as partes envolvidas. Esse posicionamento é importante, pois, no mês passado, o embaixador dos Estados Unidos no país, Reuben Brigety, afirmou que os EUA estavam convencidos de que "armas e munições foram carregadas" em um cargueiro russo que atracou na base naval de Simon's Town, perto da Cidade do Cabo, no início de dezembro, antes de partir para a Rússia.

A declaração do diplomata foi desmentida pelo governo sul-africano, e o embaixador norte-americano "admitiu que excedeu os limites e pediu desculpas sinceras ao governo e ao povo da África do Sul", conforme declarou Naledi Pandor, Ministra das Relações Internacionais e Cooperação da África do Sul.

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Ministros de Relações Exteriores preferiram concentrar suas atenções na construção de uma nova ordem multipolar / Rodger Bosch/AFP

Esse pequeno histórico de declarações não são meros acasos. Estamos a dois meses da cúpula dos Brics, e a diplomacia norte-americana demonstrou com clareza que não aceita outro posicionamento político que não seja o seu próprio e da OTAN. Por isso, as declarações do diplomata são uma tentativa de pressionar a África do Sul a se posicionar mais claramente em conjunto ao bloco da OTAN.

A posição dos países que compõem os Brics sobre a guerra da Ucrânia não é unânime. O que é certo é que estes países, incluindo a África do Sul, adotaram uma postura de não alinhamento com a OTAN, Kiev e Estados Unidos. Eles têm enfatizado a necessidade de uma solução negociada e buscam promover o diálogo entre as partes envolvidas.

A recente decisão da África do Sul em sediar a reunião de cúpula dos Brics, com a presença do presidente russo Putin, reflete a busca por uma postura autônoma e independente. No entanto, é importante ressaltar que isso não implica uma adesão integral aos posicionamentos da Rússia.

No momento, a perspectiva de uma solução negociada para o conflito na Ucrânia parece distante. O anúncio de envio de mais armamentos à Ucrânia por parte da OTAN aponta para a possibilidade de intensificação do conflito nos próximos meses. Além disso, as declarações do presidente ucraniano Zelensky sobre uma possível contraofensiva também complicam o quadro e podem prolongar a guerra.

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Apesar desses desafios, os sinais vindos da África do Sul e dos demais países dos Brics demonstram um posicionamento importante na busca pela paz e por uma solução dialogada. Esses países têm condenado as sanções unilaterais à Rússia, evitado o envio de armas para a Ucrânia e apelado publicamente por negociações entre as partes.

No geral, os Brics estão se credenciando para buscar uma resolução ao conflito na Ucrânia por meio de um acordo entre as partes envolvidas. Isso contrasta com a perspectiva de prolongamento da guerra estimulada pela OTAN e seus aliados na Europa e nos Estados Unidos. A busca pela paz e pelo diálogo é uma posição-chave dos países dos Brics nesse contexto.

* Fernando Heck é professor de Geografia do IFSP, membro da direção estadual do Sinasefe-Sp e militante da Consulta Popular.

** Este é um artigo de opinião e a visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal.

*** Leia outros artigos de Fernando Heck em sua coluna no Double PR.

Edição: Elis Almeida


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