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EM BUSCA DA VERDADE

Governo chileno vai assumir busca por 1.162 vítimas desaparecidas da ditadura

Objetivo é compensar indolência do Estado e lentidão da Justiça nesse tema, segundo a gestão Gabriel Boric

Double | Botucatu (SP) |
Emilia Vasquez Riquelme, 87 anos, ao lado de um mural que retrata seu filho Miguel Heredia Vasquez, preso e desaparecido desde dezembro de 1973 - MARTIN BERNETTI / AFP - 4/8/2023

Pouco após um homem roubado na maternidade ter encontrado a mãe biológica pela primeira vez, aos 42 anos, e a Justiça condenar sete militares aposentados pelo sequestro e assassinato do cantor Victor Jara, em 1973, o governo chileno anunciou que vai assumir a busca pelos 1.162 presos durante a ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990) que seguem desaparecidos até hoje.

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Durante o anúncio, o ministro da Justiça, Luis Cordero, disse que o Estado chileno mostrou “alto grau de indolência” e não fez tudo que deveria para descobrir onde estão as vítimas. “Há pessoas que têm informação sobre o que ocorreu e não divulgam”, afirmou o ministro. “Está na hora de darem esse passo e contribuírem para sanar as feridas que seguem abertas”.

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No dia 11 de setembro, o golpe militar que derrubou o presidente Salvador Allende e instalou a ditadura completa 50 anos. Desde então, a busca pelos desaparecidos ficou basicamente a cargo das famílias e foram encontrados os restos mortais de apenas 307 pessoas, de um total de 1.469 vítimas de desaparição forçada.

“Este número deve doer e fazer nosso sangue queimar, porque dá conta da magnitude da dívida que temos, como Estado e como sociedade”, disse o presidente Gabriel Boric ao lançar na última quarta-feira (30) o Plano Nacional de Busca da Verdade e da Justiça. “A Justiça demorou muito”, disse, emocionado.

Com financiamento estatal, o objetivo é reconstituir a trajetória das vítimas após a sua prisão, garantir acesso à informação dos familiares, que participarão da elaboração do plano, e implementar medidas de reparação.

“Nenhum outro governo teve essa vontade política, que era necessária para que este calvário não seja apenas dos familiares, mas de toda a sociedade e do Estado”, afirmou Gaby Rivera, presidente do Grupo de Familiares de Presos Desaparecidos.

A maioria dos desaparecidos eram operários e camponeses, com idade média de 29 anos. O principal obstáculo para encontrá-los tem sido a pouca colaboração das Forças Armadas. No fim dos anos 1990, militares forneceram dados de cerca de 200 presos cujos corpos, supostamente, haviam sido jogados no mar — prática comum na época. Mas os restos mortais de algumas dessas vítimas foram encontrados em valas comuns.

Em 1990, com o retorno da democracia, foi criada a Comissão Nacional da Verdade e Reconciliação, que apontou haver mais de 3.200 vítimas, incluindo mortos e desaparecidos, deixadas pela ditadura. Em 2003, foi aberta outra comissão oficial sobre prisão política e tortura, que reconheceu cerca de 38 mil torturados.

Abraço tardio

Há 42 anos, funcionários de um hospital tomaram o filho de María Angélica González de seus braços logo após o nascimento e depois disseram que havia morrido e já haviam se desfeito do corpo. O menino foi adotado por uma família estadunidense e batizado de Jimmy Lippert Thyden.

“Os trâmites da minha adoção dizem que não tenho familiares vivos. Mas nos últimos meses descobri que tenho mãe, quatro irmãos e uma irmã”, diz ele, que é advogado e define seu caso como uma “adoção falsificada”. Recentemente, ele viajou para a cidade chilena de Valdivia, onde finalmente conheceu a mãe e o restante da família.

O encontro contou com a colaboração da organização Nos Buscamos, que coordenou mais de 450 encontros entre adotados e suas famílias biológicas. O trabalho de busca é feito em associação com a plataforma de genealogia MyHeritage, que proporciona kits gratuitos de amostras caseiras de DNA.

Edição: Thales Schmidt


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