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contra o apartheid

'É uma luta por justiça, por libertação nacional', diz palestino-brasileira em ato de solidariedade em São Paulo

Manifestação reuniu apoiadores da luta pela criação do Estado Palestino; mobilização pró-Israel também foi registrada

Double | São Paulo (SP) |
Manifestantes pediram o fim das agressões aos territórios palestinos e o fim do apartheid israelense - Vanessa Nicolav

Um ato em solidariedade ao povo palestino foi realizado na noite desta terça-feira (10), em frente ao restaurante Al Janiah, no bairro do Bixiga, na região central de São Paulo (SP). 

A mobilização contou com a presença de representantes da comunidade palestina, de partidos políticos, de movimentos populares e de apoiadores da luta pela criação de um estado independente palestino e pelo fim dos ataques israelenses. As palavras de ordem clamaram por "Palestina Livre", condenaram as ações de Israel e pediram o fim dos bombardeios.  

Desde a ofensiva do Hamas no último sábado (7), Israel iniciou um cerco à Faixa de Gaza, com bloqueio de suprimentos e intensificação dos ataques. De acordo com as autoridades israelenses e palestinas, o número de mortes já chega a 2,1 mil pessoas.

A jornalista palestino-brasileira Soraya Misleh, uma das organizadoras da manifestação, afirmou que é preciso que os palestinos sejam ouvidos para que haja a dimensão correta do que é ocupação de Israel. "Os palestinos estão enfrentando há muito tempo a opressão, a colonização, a ocupação, o apartheid, a limpeza étnica que continua. Antes dos últimos acontecimentos, Israel já tinha matado somente neste ano 270 palestinos, entre os quais 65 crianças", lembra ela. "É a reação do oprimido a uma situação em que as pessoas não aguentam mais. Basta!"

Misleh, que é doutora em Estudos Árabes pela Universidade de São Paulo (USP), afirma que cotidiano na região é de terror contínuo. "Os colonos descrevem 'morte aos árabes' nas paredes, entram nas aldeias, botam fogo nas casas, nos veículos dos palestinos, agridem os palestinos. Toda a vida dos palestinos é norteada por essa ocupação brutal e essa violência brutal. Checkpoints, muro do apartheid, um cerco desumano que dura 17 anos em Gaza, em que as pessoas têm 4 horas de energia elétrica por dia, 96% da água contaminada, uma crise monetária dramática e bombardeios", descreve.

Além de palestinos, judeus também marcaram presença no ato e manifestaram apoio à causa palestina. O cozinheiro Shajar Goldwaser, que nasceu em Jerusalém, reconhece a existência de um apartheid palestino e defende a criação de um estado independente. "É essencial ter judeus aqui nesse ato para provar para o mundo que a resistência palestina não é contra os judeus, mas contra o Estado de Israel, contra o estado sionista e contra o regime de apartheid", destacou.


"A resistência palestina é contra o estado sionista e o regime de apartheid", afirma Shajar Goldwaser / Geisa Marques

O sírio Anas Obaid destacou a unidade árabe em torno da luta palestina. "Estamos aqui falando sobre a unidade  da nossa terra, que foi dividida e colocada nas mãos de britânicos e franceses, que expulsaram milhares de pessoas — sírios, palestinos, libaneses — pelo mundo inteiro. Mas a única reação [do mundo] que a gente recebe é quando uma resistência palestina tenta retomar uma terra que foi retirada. A gente conta muito com as nossas resistências árabes, com essa alma, com o nosso ar, com a respiração que voltou para o peito depois de muitos anos", pontua o jovem que vive no Brasil há sete anos.

O reconhecimento do apartheid palestino também é uma reivindicação ao governo Lula. Soraya Misleh cobrou sanções ao Estado Israel. 

“Ficamos muito tristes que o governo Lula afirmou que eram ataques terroristas. Nós nunca vimos o governo falar que os bombardeios a Gaza eram terrorismo. O estado de Israel, que bombardeia e faz tudo o que faz, não é terrorista?”, questionou. 

"Nós estamos pedindo desde que o governo assumiu que reconheça o apartheid. Esse é o pedido dos palestinos. Reconheça o apartheid, rompa os acordos com Israel, a começar pelo embargo militar. Lamentavelmente, o Brasil, que é cúmplice historicamente dessa situação, é o quinto maior importador de tecnologia militar israelense, tecnologia que é testada sobre as crianças palestinas, sobre as mulheres, sobre os idosos", afirmou.

Outra crítica da jornalista palestino-brasileira é sobre a cobertura do conflito pela mídia hegemônica, que, segundo ela, reflete a propaganda ideológica israelense. 

“[Vejo essa cobertura] de forma estarrecedora, indignada. Isso é propaganda ideológica do Estado de Israel. O que vai acontecer é que as pessoas vão odiar os oprimidos em vez de entenderem que é uma luta por justiça, por libertação nacional", diz. 

O ato desta terça integra uma série de manifestações que ocorrem no país. Apoiadores da Palestina também se reuniram no Rio de Janeiro (RJ) e em Brasília (DF). Uma nova mobilização em apoio ao povo palestino está marcada para esta quarta-feira (11), no galpão do Armazém do Campo, no centro de São Paulo (SP). 

Manifestações pró-Israel 

A Federação Israelista do Estado de São Paulo também organzou um ato em apoio a Israel. A manifestação "Com Israel contra o Terrorismo" reuniu manifestantes na Praça Centenário de Israel, no bairro de Higienópolis.

Edição: Thalita Pires


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