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Rio Grande do Sul

MUDANÇAS CLIMÁTICAS

A saúde dos mais vulneráveis é a mais atingida em situações de desastre, afirmam especialistas

A terceira live da série 'Mudanças Climáticas e Eventos Extremos: Estamos preparados?' foi ao ar nesta quarta-feira (11)

Double | Porto Alegre |
Programa vai ao ar pelos canais do Double RS e do Double no Youtube, quinzenalmente, às quartas-feiras, às 19h - Foto: Reprodução

A série de entrevistas "Mudanças Climáticas e Eventos Extremos: Estamos preparados?", uma produção do Double RS, chega em seu terceiro episódio. Com apresentação da jornalista e editora do Double RS Katia Marko e da advogada especialista em desastres e meio ambiente Fernanda Damacena, o programa abordou sobre os desafios da saúde frente aos desastres.

Os convidados para discutir a temática foram Aline Viana, gerontóloga, doutora em Saúde Pública pela Fiocruz; Alexandre Barbosa de Oliveira, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e coordenador do Grupo de Ensino, Pesquisa e Extensão de Saúde em Emergências e Desastres da UFRJ; e Liane Beatriz Righi, doutora em Saúde Coletiva pela Unicamp, professora associada do Departamento de Saúde Coletiva da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) que integrou a Frente Nacional do SUS na área de saúde mental no enfrentamento dos efeitos da enchente no Vale do Taquari.

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Depois da pandemia da covid-19, o mundo observa atônito ao reflexo de desastres na saúde, o agravamento das mudanças climáticas e eventos extremos. Neste episódio da série são discutidas as fragilidades e os avanços deste contexto de saúde e desastres. Destaca-se a importância de olhar para as necessidades dos grupos vulneráveis.

Acesso universal à saúde

Diante da atual situação que enfrenta o Rio Grande do Sul, do pós-desastre, a doutora Liane Beatriz Righi iniciou sua participação ressaltando a importância das políticas públicas em saúde. “Queria primeiro reafirmar a importância do SUS. O SUS, como sistema de acesso universal é importante e fundamental para o enfrentamento de pandemias, para o enfrentamento de urgências, para o enfrentamento de desastres. Então, países sem sistema de acesso universal têm condições muito diferentes e ruins para enfrentar esse tipo de situação”, comenta.

A professora destacou quatro aspectos a partir de acúmulos teóricos em relação à organização das Redes de Atenção à Saúde e à Atenção Primária à Saúde. “Nós viemos desenvolvendo a ideia de que na atenção primária em saúde existam equipes interdisciplinares vinculadas a territórios que coordenem as redes de cuidado. Isso tem sido repetido, mas provavelmente não tem sido realizado na sua potência. Então, nós estamos falando de uma promessa: atenção básica, ou seja, a atenção primária como fundamental. Desta forma, municípios, lugares que têm atenção primária mais robusta, que têm trabalho em equipe, enfrentam melhor o impacto dos desastres”, pontua.

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Para ela é importante ressaltar o reconhecimento das estratégias de atenção primária como importantes para qualificar o enfrentamento em situações de crises sanitárias. “Em 2014 ou 2015, a Organização Pan-Americana de Saúde começa a falar na resiliência das redes. E aí, nós passamos a pensar quais as características que conferem maior capacidade para enfrentar situações críticas. O primeiro estudo foi em relação à Boate Kiss, em Santa Maria (RS). Então, ter atenção básica é importante, ter equipes que conheçam o território é importante, portanto, defender o SUS, defender a atenção primária e defender a existência de trabalhadores com algum grau de estabilidade e grau de permanência no serviço onde atua”, complementa.

A importância da gestão local

Já o professor Alexandre Barbosa de Oliveira, que atuou amplamente no desastre que ocorreu na região serrana do estado do Rio de Janeiro, em janeiro de 2011, e na pandemia da covid-19, faz um paralelo entre outras situações de desastres com os eventos climáticos atuais. Ele lembra que o Brasil é um país caracterizado por fenômenos de desastres, embora "haja uma ideia mal alinhada" de que o país não tenha histórico de desastres.

"Quando a gente olha para trás e observa os fenômenos que nós já passamos, como por exemplo o acidente com o material radioativo lá em 1987, quando tivemos uma exposição surreal ao Césio-137 em Goiânia, com milhares de pessoas afetadas ali, algumas foram mortas e trouxe um cenário que é inimaginável, foi o pior desastre radioativo do mundo fora de usinas nucleares, até então, em 1987. Então, tivemos o desastre de Mariana e Brumadinho, que também sai muito da curva e demonstra toda uma fragilidade do país em termos de se organizar para as questões que envolvem a resposta a esses fenômenos", comenta.

Para ele, um ponto central da discussão é a compreensão justamente do conceito, das bases conceituais, do que é e do que não é o desastre, o que é e o que não é uma emergência em saúde pública, que geralmente são usadas como conceitos intercambiáveis. “Sabemos que o risco de desastre tem uma relação com a ameaça em si, então é quando nós dizemos que a ameaça pode ser de origem natural, tecnológica ou social, digamos assim”, explica.

Diante das muitas tipologias de desastres, ele destaca a perspectiva social. Ou seja, "a exposição de determinado grupo vulnerável, a vulnerabilidade em si, do território local, ou estrutural, ou institucional", o que tem uma relação com a capacidade de resposta que a região tem para enfrentar o fenômeno.

"Eu vejo que é fundamental pensar, mesmo no contexto da Atenção Primária à Saúde, na potencialidade do SUS, no entendimento de que a resposta, a gestão local de uma situação, ela é interessada, especialmente, por quem mora no território. São as pessoas que moram nas comunidades mais vulneráveis a esses fenômenos que têm as condições, digamos assim, significativas para resposta a esses fenômenos”, complementa.

A atuação do gerontólogo em situações de desastres

A área de gerontologia trabalha com envelhecimento humano de maneira holística, desde a parte biológica, psicológica e social. A gerontóloga Aline Viana lembrou que esse profissional está em diversos cenários, como instituições de longa permanência e atenção básica, e é responsável principalmente pela gestão do cuidado da saúde da pessoa idosa.

“Quando acontece os desastres, são nas redes, nos sistemas que nos apoiamos para responder às demandas que surgem. Nós sabemos que a saúde tem uma atuação que vai numa escala temporal, desde ali do agudo, das horas, até semanas e até anos e meses. As repercussões de longo prazo são principalmente em pessoas com situações crônicas de saúde, idosos, o grupo que mais está permeado por essas questões, das enfermidades de longa duração. E, muitas vezes também com o comprometimento cognitivo, o que não permite eles terem esse controle apurado, por exemplo, das suas medicações”, afirma.

Outro aspecto abordado pela pesquisadora foi a importância das redes comunitárias onde essa pessoa idosa está incorporada. “Estudos provam que ter uma rede forte, presente e articulada salva a vida. Por exemplo, tivemos ondas de calor agora aqui no Brasil, mas também ocorreu em Madri, em Portugal, inclusive assisti pessoalmente uma pessoa de lá, comentando que ele era representante da saúde, que eles fizeram uma estratégia muito simples de deixar a comunidade ou o entorno presente, lembrando a questão da água e da hidratação, fazendo visitas, e vidas foram salvas. Teve uma taxa de não letalidade extremamente elevada, o que a gente deveria aprender muito com essa experiência”, complementa.

Assista o programa na íntegra:

A série de entrevistas "Mudanças Climáticas e Eventos Extremos: Estamos preparados?" vai ao ar pelos canais do Double RS e do Doubleno Youtube, quinzenalmente, nas quartas-feiras, às 19h, debatendo um novo assunto. A próxima edição será no dia 25 de outubro.


 
 

 

 

Edição: Marcelo Ferreira


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