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Estados Unidos

Crescem protestos a favor da Palestina nos EUA e marcha nacional em Washington é convocada

Pesquisas apontam que adesão maior à causa palestina no país acontece entre democratas e população jovem

Double | Nova York (EUA) |
Entre eleitores mais jovens, maioria acredita que solução para o conflito é o fim do Estado de Israel - AFP

Aproximadamente 500 pessoas foram presas em Washington, na última semana, durante uma manifestação pacífica que pedia um cessar-fogo na Faixa de Gaza. Os manifestantes estavam sentados no átrio de um dos edifícios de gabinetes do Congresso.

A manifestação foi chamada por grupos judeus que condenam os ataques de Israel em Gaza. Já a Casa Branca, que foi contra a resolução brasileira que pedia um cessar-fogo no Conselho de Segurança da ONU, pensa de forma diferente.

“Como eu disse desde o início, nós queremos ver todas as medidas de proteção aos civis, e pausas nas operações são ferramentas táticas que podem fazer isso de forma temporária. Isso não é o mesmo que dizer cessar-fogo”, afirmou John Kirby, porta-voz de Segurança Nacional do governo estadunidense, “de novo, agora, nós acreditamos que um cessar-fogo beneficiaria o Hamas, um cessar-fogo generalizado”.


A resistência nos EUA

A manifestação de Washington não foi a primeira. Grupos pró-palestina foram às ruas já nos dias seguintes aos ataques de 7 de outubro. O objetivo era disputar a narrativa oficial, que desconsidera os anos de ocupação israelense na região. 

Layan Fuleihan, novaiorquina de ascendência palestina, fez parte da organização da primeira manifestação na cidade. Ela é diretora de educação do People’s Forum, uma espécie de incubadora de movimentos populares localizada no coração de Manhattan.

“O prefeito trouxe absolutamente todos os policiais para as ruas naquele dia”, contou Layan ao Double, “ameaçando todo tipo de retaliação, tentando fazer as pessoas terem medo, e ainda assim tivemos 20 mil pessoas nas ruas”.

A militante também reclamou do papel da mídia: “No dia seguinte, o New York Times publicou um artigo dizendo que ‘centenas de pessoas estavam nas ruas”’. Então existe uma tentativa, em todos os níveis, de minimizar a quantidade de rejeição que está vindo da população estadunidense ao projeto israelense e, particularmente, ao apoio financeiro, político e militar dos EUA à ocupação Israelense”.

Mudança na percepção da sociedade

As manifestações nos Estados Unidos podem ser entendidas a partir das pesquisas de opinião. 

Uma pesquisa Gallup, realizada anualmente, mostrou que em março de 2023, pela primeira vez, o número de democratas que simpatizam com os palestinos superou o número daqueles que simpatizam com os israelenses: 49% contra 38%. Em 2021, a simpatia pelos palestinos era de 38%  e pelos israelenses era de 40%.

“Eu acho que nós vimos uma mudança nos últimos dois anos”, explica Layan, “em particular, não apenas porque as pessoas tomaram consciência sobre a Palestina em si. Eu acho que o projeto estadunidense como um todo vem se quebrando, e vem tendo uma exposição da sua ilegitimidade, especialmente para as gerações mais novas”.

Agie, um jovem que participou de uma das manifestações em Nova York, se enquadra nesse grupo: “Na minha idade, todo mundo está com a Palestina. Quase todo mundo. Porque nós reconhecemos a injustiça, e conectamos com a injustiça aqui nos EUA."

Entre os republicanos, a realidade é outra. Na mesma pesquisa de março deste ano, 78% afirmavam ser simpáticos aos israelenses, contra apenas 11% que se diziam simpáticos aos palestinos.

Um problema para Biden: mais jovens apoiam mais os palestinos

De acordo com um levantamento feito pela Universidade de Harvard, entre os dias 18 e 19 de outubro, 26% dos americanos entre 18 e 24 anos acreditam que a solução para o conflito é o fim do estado de Israel.

No geral, ainda segundo a mesma pesquisa, 84% dos estadunidenses, uma maioria absoluta, afirma estar ao lado de Israel contra o Hamas. Esse número cai para 52% no grupo entre 18 e 24 anos.

Para Joe Biden, isso é um problema. O motivo é que essa parcela da sociedade é fundamental para o democrata nas eleições do ano que vem. Segundo um levantamento da Edison Research, um consórcio dos principais veículos de imprensa dos EUA, Biden recebeu, em 2020, 65% dos votos de eleitores entre 18 e 24 anos, contra apenas 31% que votaram em Donald Trump.

O presidente tenta se equilibrar entre o apoio à Israel e os anseios dessa parcela do eleitorado. Ao que tudo indica, porém, Biden está tendo dificuldades em tentar agradar gregos e troianos.

“Ele fez alguns comentários que talvez façam referência a algum reconhecimento do fato de Israel cometer crimes de guerra. Mas, na verdade, nem isso. Nem perto disso”, disse Layan,  “todas as suas ações são 100% em apoio ao que ele chama de ‘o direito de Israel de se defender”.

A ativista do People’s Forum afirmou ainda que “Israel não tem se defendido, não por 75 anos. Tem sido um projeto de agressão. E isso, de novo, é parte, eu acho, da criação de uma nova narrativa para tentar ganhar, em particular, o setor progressista que talvez se sinta desconfortável em financiar um genocídio”.

Marcha em Washington

Está marcada para o dia 4 de novembro uma marcha nacional em Washington em solidariedade à Palestina. Originalmente chamada por 9 organizações políticas, dentre eles o People’s Forum, a convocatória já conta com o apoio de pelo menos outros 120 grupos.

A expectativa da organização é de que centenas de milhares de pessoas, se não mais, se reúnam na Freedom Plaza, a poucos metros da Casa Branca, pedindo palestina livre.

Rimon, palestina de Jaffa que se manifestou em Nova York, já sabe o recado que dirá a Joe Biden: “eles estão tentando dizer, não só nos EUA, mas até mesmo na Europa, que quem sair para apoiar a Palestina será considerado terrorista. Mas nós não somos terroristas. Nós temos o direito. Se Israel viesse ocupar os EUA, Joe Biden seria o primeiro a defender o seu país”.

 

Edição: Leandro Melito


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