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Coluna

O trabalhador da cultura que habita em mim saúda o trabalhador da cultura que habita em você

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Para que exista arte o artista é imprescindível e para que este exista são necessárias melhores condições de trabalho. - Té Pinheiro
Que 2024 seja com melhores condições de trabalho na arte, mais direitos e muita cultura para o povo.

Estou aqui na primeira semana de 2024, entre descanso e trabalho, pensando sobre o que vamos conversar na minha primeira coluna do ano. Poderíamos falar dos avanços e/ou dos limites da política cultural do governo Lula 3 em seu primeiro ano ou fazer a mesma avaliação olhando para o Ceará, poderia falar sobre as notícias falsas e o quanto elas seguem impactando em nosso dia a dia, da crise estética que o Brasil enfrenta, da dimensão cultural do fascismo bolsonarista e da batalha das ideias que travam a extrema direita e a esquerda hoje.

 

Mas acho melhor deixar, pelo menos no momento, essas grandes discussões para as pessoas mais sabidas que eu, que tem estudos sistemáticos e aprofundados sobre essas questões. Não que eu não tenha pitacos e leituras sobre uma ruma desses e outros assuntos, mas hoje, no primeiro texto do ano, quero conversar com as trabalhadoras e os trabalhadores da cultura, minha companheirada de categoria profissional.

 

Quero pensar um pouco sobre as grandes contradições profissionais que nós enfrentamos, mas como estamos longe de conseguir transformá-las enquanto seguirmos agindo por conta própria, sem união. Eu comecei a trabalhar com cultura, mais especificamente arte, em 2015, tomei pra mim que era nesse ramo que queria construir minha caminhada e sustentar minha vida. O primeiro grande desafio foi descobrir como fazer isso, pois não existem cursos formais ou informais que ensinem propriamente como fazer isso, no máximo algumas aproximação tangencial, as instituições e equipamentos culturais menos ainda, outros profissionais por vezes agem contra você com medo de perderem o pouco espaço que existe. A expressão aprender a fazer fazendo nunca fez tanto sentido. Sem falar que a realidade está em constante transformação e segue exigindo cada vez mais de nós.

 

No início foi um processo bem solitário e desafiador, talvez eu só tenha conseguido atravessá-lo porque minha companheira também é artista e já tinha alguma experiência na área e compartilhava comigo os sonhos e o trabalho para realizá-los. Participar de uma feira de economia criativa, me cadastrar no MEI, tirar nota fiscal, declarar o imposto de renda, escrever projeto pra edital, montar um bom plano de trabalho orçamentário, prestar contas, fazer a comunicação de minhas ações ou divulgar sua marca… Alguns dos vários desafios que tive que ir desbravando na marra. Um bocado que ainda nem aprendi. Escolher viver de arte, não é uma escolha fácil, quando se é da classe trabalhadora, pois se tem um lugar onde a lógica neoliberal atua com força é no sistema da arte, fortalecendo concorrência, individualismo, oportunismos...

 

Não sei se por causa de minha formação na militância social, mas desde o início compreendi que é essencial a construção de redes de apoio, onde trocamos experiências, colaboramos uns com os outros e nos organizamos para reivindicar melhorias. Até vejo um certo movimento na formação dessas redes, mas sempre pequenos grupos de trabalhadores culturais que também costumam ser amigos mais íntimos, mas essas diversas redes não costumam conversarem entre si, como já falei pela cultura capitalista neoliberal que reina no sistema da arte, agindo em cada linguagem e setor de forma diferente, é claro, mas igualmente cruel. As condições de trabalhos não são muito boas. Não existem pisos salariais, nem regras mínimas de contrato para a maior parte das funções no setor, somos a grande maioria de trabalhadores informais e prestadores de serviços, empresas solitárias de nós mesmo com nossos MEIs.

 

Esses dias estava conversando com um amigo trabalhador em outro ramo, inclusive ele sendo CLT, de com é foda como muitas vezes nossos desejos pessoais de acessar algum bem está manchada pela necessidade de trabalhar e melhorar nossas condições de trabalho. Por exemplo, escrevi essa coluna em um computador que comprei final do ano passado, algo que queria a muito tempo, mas que sobretudo eu queria para poder melhorar minhas condições de trabalho, o lazer vinha em segundo plano. Mesmo quando penso a criação artística que também é uma dimensão do meu trabalho, fica secundarizada em relação as escritas de projetos, buscas de cotações online, prestações de contas, relatórios e toda a burocracia que envolve nosso trabalho.

 

Pois bem, escrevo essa coluna para convidar você leitor/a, que como eu é um trabalhador/a da cultura, a contribuir para a modificação das relações sociais em nossa categoria, precisamos construir relações que fomentem as parcerias, a unidade e a organização coletiva da categoria. Construam suas redes mais próximas e cotidianas, mas articulem essas redes com os Fóruns de sua linguagem, com os sindicatos e associações que já existem, nos conselhos de cultura, nos movimentos auto organizados e nos partidos. Unamo-nos e façamos acontecer coletivamente a transformação que mentalizamos individualmente. Quando estamos todos bem a sociedade funciona melhor. Feliz 2024!

 

*Lívio Pereira é trabalhador da cultura e militante social, escreve para o BdF há mais de um ano.

** Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Double. O título foi retirado de um dos versos da canção que encerra o espetáculo.

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Edição: Camila Garcia


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