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Rio Grande do Sul

POVOS ORIGINÁRIOS

Faced diploma o primeiro doutor Guarani da Ufrgs

Tese de Isael da Silva Pinheiro, da Terra Indígena São Jerônimo (PR), aborda a educação tradicional do seu povo

Isael defendeu a tese “Arandu: A Pedagogia Guarani das Belas Palavras”, - Foto: Reprodução/Faced Ufrgs

“Um momento muito especial para mim e para o povo guarani”. É assim que Isael da Silva Pinheiro define a defesa de sua tese de doutorado pelo Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGEDU) da Ufrgs, vinculado à Faced. Pertencente ao povo guarani, da Terra Indígena São Jerônimo, em São Jerônimo da Serra, no Paraná, Isael conquistou mais que o doutoramento na ocasião: o pesquisador se tornou o primeiro doutor guarani da Ufrgs. O feito é um importante marco e mais um exemplo do pioneirismo da faculdade no doutoramento de indígenas na universidade.

A tese de Isael, “Arandu: A Pedagogia Guarani das Belas Palavras”, desenvolvida sob o aconselhamento da docente Maria Aparecida Bergamaschi, aborda a educação tradicional guarani e os seus processos próprios de ensino e aprendizagem. Trata-se de uma pedagogia singular, explica Isael, cujos saberes se baseiam sobretudo nas narrativas orais dos sábios e sábias guaranis, considerados os guardiões dos conhecimentos originários. “O objetivo da pesquisa é construir elementos teóricos para a compreensão e sistematização dessa educação, contribuindo para a organização dos currículos e programas escolares”, resume o pesquisador.

“A tese busca contribuir para a construção de teorias críticas para enfrentarmos os avanços da pedagogia ocidental sobre os nossos modos próprios de ser e viver. A pedagogia guarani deve ser pensada e construída a partir das vivências produzidas na tekoa [aldeia]” – Isael da Silva Pinheiro

Isael é o mais recente exemplo do protagonismo da Faced no doutoramento de indígenas na Ufrgs. Em 2020, a faculdade diplomou Bruno Ferreira Kaingang, o primeiro doutor indígena da universidade. Em sua pesquisa, Bruno defendeu que a escola kaingang deve ser construída a partir da cultura e das concepções de educação e mundo de seu povo, superando modelos e políticas educacionais formuladas por não indígenas. Já em 2023, Susana Kaingang tornou-se a primeira doutora indígena da Ufrgs, também pela Faced. No estudo intitulado “Tra(n)çando caminhos: a história de vida de Andila Kaingang”, a pesquisadora analisou a educação escolar indígena a partir da trajetória da mãe, Andila, uma educadora e militante pela educação kaingang.

De acordo com informações do PPGEDU,  até o momento foram concedidos treze títulos de pós-graduação stricto sensu para indígenas, sendo dez mestrados e três doutorados. Em 2016, o programa instituiu o sistema de reserva de vagas, destinado atualmente a candidatos autodeclarados pretos ou pardos, indígenas, quilombolas, pessoas com deficiência, pessoas surdas, travestis ou transexuais, refugiados ou com visto humanitário e migrantes em situação de vulnerabilidade social. Na seleção de 2023, foram disponibilizadas 85 vagas de mestrado, das quais 38 (44,7%) eram fruto do sistema de reserva de vagas. Em relação ao doutorado, o edital ofereceu 50 vagas, sendo 21 (42%) para ações afirmativas.


"É essencial ressaltar a importância das cotas e das políticas de ações afirmativas nos programas de pós-graduação", afirma Isael / Foto: Reprodução/Faced Ufrgs

Segundo Maria Aparecida Bergamaschi, professora no PPGEDU e pesquisadora da educação indígena, a explicação para o vanguardismo da Faced em relação ao doutoramento de indígenas na Ufrgs é o interesse dessas populações pela área da educação e as iniciativas de incentivo ao ingresso na pós-graduação stricto sensu através da reserva de vagas. “Quem mais ganha com a presença desses intelectuais é o próprio programa, bem como a faculdade”, avalia Maria Aparecida. “Aos poucos vamos aprendendo a escutar e a exercer os primeiros passos interculturais, abrindo frestas, por enquanto, para os conhecimentos e as metodologias indígenas, que muito contribuem para a educação”, destaca a docente.

“Esses mestres e doutores contribuem de forma muito direta com a educação escolar indígena, no âmbito da gestão, no diálogo com os gestores das políticas públicas, na mediação da escola com a comunidade” – Maria Aparecida Bergamaschi

Para Isael, a presença indígena na universidade é fruto da mobilização civil em busca de igualdade e oportunidade para todos, inclusive para os povos originários. “Nós queremos espaço para contar nossas histórias e transmitir nossos conhecimentos e saberes a partir da nossa singularidade”, diz o pesquisador. Para que isso ocorra, pontua Isael, é preciso descolonizar os espaços acadêmicos, os quais ainda priorizariam metodologias ocidentais. “Nesse sentido, é essencial ressaltar a importância das cotas e das políticas de ações afirmativas nos programas de pós-graduação, pois elas possibilitam que nós, indígenas, ocupemos lugares que antes nos foram negados.”

Além do doutoramento precursor, Isael é também o primeiro aluno indígena do PPGEDU a realizar intercâmbio internacional. A vivência ocorreu na Universidade do Vale Fraser (UFV), no Canadá. Após as experiências, Isael pretende continuar pesquisando, escrevendo e publicando trabalhos. No horizonte do primeiro doutor guarani da Ufrgs, contudo, há também a vontade de uma maior mobilização por mais docentes indígenas na universidade. “Eu quero seguir na área acadêmica como professor pesquisador. No entanto, eu tenho um grande desafio pela frente, que é lutar por concursos específicos para professores indígenas na Ufrgs”, revela. “Esse é um dos principais caminhos para a reparação do longo processo de injustiça, discriminação e estigmatização a que resistimos.”

* Com supervisão de Wagner Machado

 
 

 

 

Edição: Faced Ufrgs


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