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Carnaval

Fogo nos racistas, Borba Gato, Mano Brown e muito samba: Vai-Vai leva manifesto paulistano para o sambódromo

A escola, que mais tem títulos em São Paulo, foi a primeira a desfilar na noite deste sábado (10)

Double | São Paulo (SP) |

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Vai-Vai levou o hip hop para o Sambódromo do Anhembi - Liga SP

O desfile da maior campeã do carnaval paulistano, Vai-Vai, foi o primeiro a passar pela avenida do Sambódromo do Anhembi, na noite deste sábado (10). Com uma homenagem ao hip-hop e referências ao samba, duas expressões artísticas de berço negro, o tema do samba-enredo foi: Capítulo 4, versículo 3 – Da rua e do povo, o hip hop: um manifesto paulistano

Um dos momentos em que o público mais ovacionou – de vários – foi a entrada da escultura do bandeirante Borba Gato com luzes que saíam dos pés imitando chamas de fogo. Na parte de trás do carro alegórico, o lema “fogo nos racistas”. 

Em julho de 2021, um grupo de manifestantes ateou fogo em pneus ao redor da estátua que fica na zona sul de São Paulo. Paulo Roberto da Silva Lima, conhecido "Galo", chegou a ser preso por incêndio, associação criminosa e adulteração de placa de veículo. Ele é entregador de aplicativo e liderança comunitária na Favela do Vietnã, no extrema da zona sul da capital paulista. 

Antes da apresentação, a escola publicou em suas redes sociais um texto que lançou a dúvida se a réplica da estátua de Borba Gato seria realmente queimada na avenida. "Foi um colono brasileiro, bandeirante paulista, sertanista, proprietário de escravizados e descobridor de metais preciosos. Nas viagens que realizava, para explorar novas terras, os grupos indígenas encontrados pelo caminho eram assassinados, as mulheres estupradas e os sobreviventes aprisionados e vendidos como escravizados. E aí? Fogo na estrutura?”, diz o texto. As chamas vieram em forma de luzes vermelhas de led, com fumaça nos pés da escultura, desde o início do desfile. 

A referência ao “fogo nos racistas” também estava presente no samba-enredo explicitamente com o trecho “É preto no branco, no tom do meu canto. Preconceito nunca mais. Fogo na estrutura. Justiça, igualdade e paz”, numa referência à estrutura racista da sociedade

O samba-enredo também trouxe referências às religiões de matriz africana, o candomblé e a umbanda, com as saudações Laroyê e Saravá, utilizada para cumprimentar os orixás, entidades espirituais cultuadas nas religiões, e a Tranca-Rua, referência a uma limpeza dos caminhos do mundo.  

“Olha nós aí de novo, coroa de rei. Capítulo 4, Versículo 3. Vai-Vai manifesta o povo da rua. É tradição e o samba continua. Laroyê, axé me dê licença, Saravá, seu Tranca-Rua. Eu não ando só, o papo é reto. E a ideia não faz curva. Renegados da moderna arte. Não faço parte da elite, que insiste em boicotar.” 

A referência ao hip-hop esteve presente em todos os carros, com a escultura gigante de um happer, frases de músicas famosas, nomes de referência do estilo musical estampados nos carros alegóricos e réplicas de discos “Rap é compromisso”, do Sabotage, e “Sobrevivendo no inferno”, dos Racionais MC’s.   

E falando em Racionais MC’s, o desfile contou com a participação de todos os integrantes do grupo: Edi Rock, KL Jay, Ice Blue e Mano Brown. "Bixiga, Bela Vista na área. Chegou a hora, São Paulo", disse Mano Brow ao entrar na avenida. 

O rapper também fez uma referência à música "Diário de Um Detento", que começa com "São Paulo, dia 1º de Outubro de 1992, oito horas da manhã". A cançõ é considerada um hino dos Racionais. "São Paulo, dia 10 de fevereiro de 2024, dez e trinta da noite", disse Mano Brown. 

A referência também não podia deixar de estar na música. “Balançou, balançou o Largo São Bento. Moinho de vento, a ginga na dança. Grande triunfo do movimento. No breaking o corpo balança. Solta o som, alô, DJ. Que eu mando a rima pra embalar manos e minas. Na batida perfeita, meu rap é a voz. As cores da minha aquarela. No muro, a tela que o tempo desfaz. Mas apagar jamais (Vai-Vai, Vai-Vai). A força do conhecimento no gueto, procedimento. Atitude de gente bamba. Tem hip-hop no meu samba.”

Edição: Rodrigo Durão Coelho


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